Alerta de seca: Resgate de botos-do-Araguaia mobiliza equipes especializadas no Tocantins
Seca: Redução extrema do nível do rio Urubu fragmentou o curso d’água e deixou seis animais confinados em duas poças.
Uma operação emergencial mobilizada para resgatar botos-do-Araguaia (Inia araguaiaensis), espécie endêmica da região, isolados pela redução extrema do nível do rio Urubu, município de Lagoa da Confusão, em Tocantins, conseguiu resgatar e translocar dois animais que estavam em condições críticas de sobrevivência.
Equipes especializadas se mobilizaram para avaliar a saúde dos botos e realizar o resgate; os animais seguem sendo monitorados pelos órgãos ambientais. A ação reuniu especialistas em golfinhos de rio de órgãos ambientais e atores locais e estabeleceram um plano de monitoramento para acompanhar as condições dos animais e do ambiente nas próximas semanas.
Inicialmente, haviam sido identificados cinco botos isolados no rio Urubu. Dois botos estavam retidos em uma poça localizada próxima a um barramento utilizado para abastecimento e irrigação de áreas de monocultivo. Outros três indivíduos se encontravam confinados em uma segunda poça, situada 500 metros e sem qualquer conexão hídrica com o primeiro grupo. Após as equipes avaliarem o território por meio de drones e caiaque, identificaram um sexto animal, totalizando seis botos distribuídos em três áreas distintas do rio, fragmentado pela decorrência da redução extrema do nível de água.
A redução contínua do volume de água, associada à intensa incidência solar e radiação térmica, características da região nos meses da seca de maio a outubro, podem provocar o superaquecimento das poças e comprometer a sobrevivência dos animais aquáticos.
Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) referentes a julho de 2026 indicam que a bacia do Tocantins-Araguaia enfrenta uma condição de seca severa persistente. As previsões para os próximos meses apontam chuvas abaixo dos valores habituais e temperaturas acima do esperado para a região, em um contexto de fortalecimento do fenômeno El Niño, que pode atingir intensidade muito forte e persistir até 2027.
Diante desse cenário, os dados de superfície de água para a bacia Araguaia-Tocantins são alarmantes. Segundo o MapBiomas Água, observa-se tendência persistente de redução da superfície da água na bacia Araguaia-Tocantins ao longo das últimas quatro décadas. Na série histórica analisada (1985-2025), 63,3% das áreas com tendência significativa apresentaram diminuição da superfície. O cenário é preocupante nas regiões do centro-oeste e sudoeste do Tocantins, incluindo a região da Lagoa da Confusão.
“A seca compromete a conectividade entre as paisagens, algo que é essencial para a movimentação e a sobrevivência do boto-do-Araguaia. Isso é extremamente preocupante, porque os botos são indicadores da saúde do habitat: quando eles sofrem, é sinal de que todo o ecossistema aquático está sob estresse”, afirma Mariana Frias, analista de conservação do WWF-Brasil. Segundo a analista, ainda não é possível confirmar esse episódio como consequência do El Niño, mas “essa seca é um indicativo da fragilidade do Cerrado a qualquer evento climático extremo que ocorra nos próximos meses”, ressalta.
Operação emergencial
O WWF-Brasil, por meio da rede de colaboradores da REBOTO (Rede pela Conservação do Boto do Araguaia), foi acionado a integrar esforços de uma operação de emergência junto a órgãos ambientais.
Em resposta à ocorrência, o Task Force de Emergências para Botos, iniciativa brasileira apoiada pelo South American River Dolphin Initiative (SARDI) é composta por uma rede de médicos veterinários especializados em resgate de cetáceos amazônicos e operações em ambientes desafiadores se deslocou até a região para realizar o apoio à emergência.
Do dia 21 a 24 de agosto foi realizado o planejamento da intervenção e resgate de dois dos animais, que estavam em situação mais crítica, sendo capturados por veterinários e translocados para um trecho de maior profundidade (dois metros) e com disponibilidade de alimento, onde já havia sido identificado outro boto. Um dos animais resgatados apresentava sinais de inanição, desidratação e queimadura provocadas pela exposição ao sol, o que tornou especialmente delicado o seu transporte para uma área mais distante.
Após a avaliação da saúde, administração de medicamentos e exames, os dois animais foram liberados no novo trecho e monitorados durante sábado e domingo. Funcionários da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMA) de Lagoa da Confusão e da Fazenda Goiás também atuaram para ampliar a disponibilidade de alimento, adquirindo peixes para os grupos de botos.
O monitoramento continuará sendo realizado de forma integrada e periódica. Caso sejam identificados sinais de alteração no comportamento ou na condição dos animais, as equipes técnicas responsáveis serão acionadas para avaliação e adoção das medidas necessárias.
Para a realização da operação emergencial, foi mobilizada uma ampla rede de instituições e parceiros, incluindo o WWF-Brasil, a Unievangélica, a R3 Animal, a National Marine Mammal Foundation, o Instituto Mamirauá, o BIOMA, a Fazenda Goiás, a SEMA de Lagoa da Confusão, o Naturatins, e Defesa Civil.
Um boto exclusivo do Brasil
O boto-do-Araguaia (Inia araguaiaensis) é uma espécie endêmica do Brasil, restrita à bacia dos rios Tocantins-Araguaia, em uma região de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado.
A espécie foi descrita cientificamente em 2014 e é classificada como vulnerável (VU) à extinção pela IUCN e pelos órgãos ambientais nacionais (ICMBio/IBAMA). Por apresentar distribuição restrita, alterações na qualidade e na disponibilidade de água, perda e fragmentação de habitat e conflitos com atividades humanas representam ameaças relevantes para sua conservação. Além de endêmica e restrita, a população de boto-do-Araguaia é pequena, estimada em menos de 1500 indivíduos e considerada em declínio populacional
Os golfinhos de rio são considerados sentinelas dos ambientes aquáticos, por responderem rapidamente às alterações nas condições dos rios. Eventos extremos de seca e o aumento da temperatura da água podem representar riscos significativos para essas espécies.
O episódio ocorrido na Amazônia em 2023 evidenciou a dimensão desse risco. O aumento das temperaturas da água em lagos da região de Tefé e Coari esteve associado à morte de mais de 300 botos-vermelhos e tucuxis, em um dos mais graves eventos de mortandade de golfinhos de rio já registrados na região.

