Hábitos de consumo da China podem ditar nova onda de expansão das exportações brasileiras de carne
Recorde em agosto mostra potencial do mercado da China, mas adaptação a padrões de qualidade e tecnologia será decisiva
As exportações brasileiras de carne bovina para a China cresceram cercade 50% em agosto de 2025 em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo levantamento da Scot Consultoria. De acordo com a consultoria, o volume embarcado atingiu 268,6 mil toneladas de carne in natura, o maior já registrado para o mês, enquanto o preço médio pago ficou em US$ 5,61 por quilo, também recorde para um agosto desde 2022.
Mesmo com esse avanço, especialistas lembram que ainda há muito espaço a explorar. O consumo médio de carne bovina na China é de apenas 7 a 10 kg por habitante/ano, de acordo com estimativas da Embrapa e do USDA. No Brasil, esse número chega a 24,4 kg/hab/ano, e nos Estados Unidos, a 26 kg/hab/ano. Com 1,4 bilhão de habitantes, qualquer variação no padrão de consumo chinês representa impacto imediato para a pecuária mundial.
Entretanto, o apetite chinês não está apenas no volume. Cada vez mais, os consumidores locais têm priorizado atributos como segurança alimentar, rastreabilidade, padronização e ausência de hormônios ou antibióticos. “Esses fatores são decisivos para os consumidores chineses e tendem a orientar os rumos da pecuária brasileira nos próximos anos”, explica Luiz Gustavo Nussio, professor-titular da ESALQ-USP.
Essa mudança impõe ao Brasil o desafio de deixar de ser visto apenas como fornecedor de commodities e conquistar espaço no segmento premium, onde a qualidade e a consistência do produto são determinantes.
Startups impulsionam adaptação da pecuária
Para atender a essas exigências, produtores brasileiros têm recorrido à inovação tecnológica. No Mato Grosso, principal polo da pecuária nacional, a Koneksi, startup fundada em 2018, desenvolveu o KonectPasto, plataforma que integra dados de drones, estações meteorológicas e modelos computacionais para otimizar o manejo do gado a pasto.
O sistema monitora em tempo real indicadores como altura e densidade do capim, balanço hídrico, ganho de peso e taxa de lotação, oferecendo dados que dão mais agilidade ao produtor na tomada de decisão. “Essas informações ajudam a elevar a produtividade e garantem padrões de qualidade compatíveis com as exigências do mercado chinês”, afirma Roberto Aguiar, CEO da Koneksi.
Atualmente presente em mais de 60 fazendas e cobrindo cerca de 30 mil hectares, a plataforma mostra como a tecnologia pode transformar a pecuária brasileira em um setor mais competitivo, sustentável e preparado para disputar o mercado internacional. “O manejo correto dos pastos é o grande desafio. Quando bem feito, ele assegura a qualidade que o consumidor chinês procura”, completa Aguiar.

